AS
AVENTURAS DE UM MARACUJÁ NO VIETNAM
(Mensagens
enviadas pelo Vinicius 77-211 quando ele trabalhava em uma empresa aérea de lá)
Nestes últimos dias estive fora do meu
amado Vietnam e do meu pedaço de Saigon.
O que aconteceu foi que uns dias atrás
um Boeing 767 operando para a Vietnam Airlines
fez um pouso muito duro, tão duro que o avião está parecendo uma toalha
torcida. O pouso foi realizado por um piloto local. Um herói de guerra, assim
eu soube. Vai ver que ele se ocupava em quebrar aviões americanos durante a
guerra e resolveu prosseguir com sua missão nos dias de hoje. Desta forma,
soube-se que apesar do avião estar quase sendo dado como perda total, o piloto
continua vivo e feliz na sua posição como comandante.
Bem, o que importa é que a Region Air, companhia com a qual
tenho contrato e proprietária da aeronave acidentada, está com outro Airbus cobrindo a falta do Boeing.
Portanto, agora eu estou voando para a Pacific Airlines e para a Vietnam Airlines. O vôo que
fazemos para a Vietnam Airlines
parte de Saigon, segue para Dubai, nos Emirados
Árabes Unidos, onde passamos dois dias, e depois para Paris onde ficamos por
três noites, e de onde escrevo estas poucas linhas.
Bem, a viagem em si já foi uma pequena
jóia de stress, uma vez que ninguém veio até mim para fazer um briefing e me informar da rota, dos procedimentos, do que
esperar, ou sobre coisas de cunho prático, tais como: em que hotel pernoitar,
números de telefones de representantes locais e outras coisinhas. Enfim,
absolutamente nada. Saí de Saigon como um cego tentando achar um caminho, sem
bengala ou cachorro-guia. A primeira perna da viagem se revelou um pouco mais
fácil porque, felizmente, o primeiro oficial que estava comigo já havia estado
em Dubai antes. Chegando lá fomos contatados por um
funcionário do hotel Sheraton e daí seguimos para o
tal hotel, onde chegamos já um tanto tarde da noite. A
primeira impressão da cidade foi muito boa, ela é coalhada de prédios super
modernos.
Já no quarto encontrei um livro que
falava de alguns fatos sobre o país. Aqui vão alguns: o país em si é uma
coalizão de emirados e “sheikados” (nem sei se existe
tal expressão), todos sob o controle de uma família. Os caras,
podemos dizer, são os donos do país. Desde seu início, Dubai foi uma cidade dedicada ao comércio marítimo. Seu
porto é chamado The Creek
(o riacho), que de rio não tem nada, só o nome. Durante muito tempo uma de suas
fontes de renda mais significativas era a pesca de pérolas, que eventualmente
foi para o vinagre quando os japoneses começaram a cultivar bancos de pérolas. Dubai também foi escolhida pelos ingleses, na época em que
eles eram os xerifes do mundo, como base de sua marinha na região. Uns anos
atrás um árabe chutou uma pedra e descobriu petróleo e o resto é história. A
média de chuva na região é relevante: cinco dias por ano! Ou seja, é o desertão mesmo. Apesar disto, se não fosse pela temperatura
exterior, ninguém diria que se está no deserto. Existem muitos jardins e todos
os lugares são equipados com ar condicionado. A água vem de usinas de
dessalinização. Aparentemente não existe nenhum tipo de racionamento.
Como podem
imaginar, o povo é todo de Alá, mas como diz o livro, eles são tolerantes e
chegam a ter “duas igrejas católicas na cidade”. Judeu nem pensar. O livro é
bem claro quanto a isto: nenhum israelense ou pessoa com passaporte israelense
é tolerada.
Eles também são tradicionais e os
homens se vestem com aquela bata branca. Para a cabeça eles já não são tão
tradicionais e vi alguns usando bonés de beisebol ou mesmo nada. As mulheres se
vestem de preto, mas o chador (véu) é opcional.
Engraçado é que parece que a cor do batom que elas usam também parece
padronizada: um vermelho amarronzado ou, se preferirem, um marrom avermelhado. Algumas tem o rosto bem bonito, embora não se possa ter
idéia quanto ao resto. A maior parte da população da cidade, segundo fui
informado, é constituída de expatriados. Aparentemente todos os serviços da
cidade são prestados por gente de fora. Sendo os mais básicos por indianos
(eles estão em toda parte!), egípcios e outras raças menos votadas. Os melhores
são tomados pelos europeus e americanos, mas aparentemente com predominância
européia.
Eles gostam muito de corridas de
cavalos e o livro mostra que eles têm um ou mais hipódromos luxuosíssimos. Também
são chegados ao futebol e outros esportes bretões tais como golfe, cricket e outros. Existem alguns esportes locais também, um
deles é a tradicional corrida de camelos, o que não chega a surpreender
ninguém, considerando-se a região. Não sei se eles têm camelódromos, mas se um
dia ouvirem falar dos camelódromos de Dubai, tenham a certeza de que não se trata de um local onde
empresários autônomos vendem suas mercadorias e contrabandos, mas sim de um
local sadio dedicado ao esporte.
Divagando um pouco: como seria uma
corrida de camelos? Conseguem imaginar? As 500 milhas de Dubai.
Evento tradicional do camelismo internacional.
Participantes de todo o mundo trazendo a mais alta tecnologia em camelos ao
local. A festa dos boxes. O ruído dos camelos, enfezados, cuspindo e peidando em todo mundo. As entrevistas. As mulheres
glamorosas todas de véu e de preto a cercarem os jóqueis mais famosos. Pelo
menos eles não têm que se preocupar com chuva no dia da corrida. Imaginem os
treinos, as tomadas de tempo, os recordes caindo a cada ano. O grid, a emoção da largada. O balé dos boxes, mostrado em
artísticas tomadas de imagens em câmera lenta. Os pit
stops: a equipe fazendo seu camelo beber litros e
litros de água em poucos segundos. Um fenômeno de coordenação e trabalho de
equipe. O circo internacional da fórmula Camel. Sem
contar o campeonato dos criadores. A tecnologia de ponta renovada e recriada a
cada ano. Imaginem Galvão Bueno narrando as 500 milhas de Dubai.
Nem vou arriscar a escrever o que me passa na cabeça. Deixo por conta da
imaginação de cada um. A bandeirada final. A música no final tchantchantchantchan...O piloto, jóquei desculpe, correndo a pista com uma
bandeirinha do Brasil na mão. A festa do pódio: os pilotos dando banho de Perrier em todo mundo. Água mineral? Sim, porque champanhe
não pode. Aqui o pessoal é muçulmano, se lembram?
Vamos esquecer esta bobagem e
continuar. Bem, em posse de tais informações segui para uma volta. O primeiro
oficial Sham servindo de guia. Pegamos um táxi e
seguimos para uma casa de câmbio onde trocamos algum dinheiro e daí fomos para
um imenso shopping center. O
lugar não deve nada a nenhum lugar que eu já tenha conhecido e para ser franco
bate a maioria dos que eu já vi por aí. Nada demais, tudo muito ocidental. Com
exceção de que não existe venda de bebida alcoólica em lugar nenhum. As únicas
concessões são os hotéis, onde os infiéis podem encher a cara e esvaziar os
bolsos. Fomos aqui e ali e nada que eu possa achar digno de mencionar, afora a
abundância em artigos de consumo e de luxo.
Antes que eu me esqueça! Uma coisa
digna de menção é que comecei a perceber como a cultura brasileira se permeou
por aqui. Em todas as lojas podem-se ler expressões brasileiríssimas tais como:
We are open, Summer Sale
(lá sempre é Summer Sale, uma vez que não existe
outra estação), Clearance, 20% off
e outras tantas.
Voltamos para o hotel e daí resolvi me arriscar a dar uma caminhada pela área.
Deixei o hotel, que fica às margens do The Creek e comecei a andar. Na
calçada, margeando as águas, vários navios ou barcos. A maioria deles são
restaurantes flutuantes. Alguns bem grandes e luxuosos. Outros são cargueiros
que carregam e descarregam abertamente a poucos metros dos jardins e de uma
grande avenida. Tudo estava muito vazio e comecei a perceber que a moçada
residente no local não é muito chegada a bater perna.
Outra coisa é que eles não se fazem de
rogado: bateu um sono eles se deitam em qualquer lugar disponível e puxam um
ronco. Cruzei com um pessoal meio mal encarado e resolvi não arriscar: passei a
caminhar pela avenida, mais movimentada. Se bem que, ser mal encarado por lá
não significa muito. Basta ver um quadro do Emir no saguão do hotel. O camarada
tem uma cara e um olhar de que vai cortar sua garganta sem pensar duas vezes.
Bem, andei pra caramba e não vi nada
demais. Lojas e mais lojas de marcas famosas, alguns restaurantes de fast food (outra expressão
brasileira), como o Mc Donald’s, versão árabe e o KFC
(lá Kentucky Fried Camel).
Fiquei imaginando para que tantas lojas de roupas caras e famosas se eles só
usam branco (homens) e preto (mulheres).
- Ah, Madame,
bem vinda à nossa loja! Algo lhe agrada? Posso ser útil em alguma coisa?
- Bem, acho que gostaria de
experimentar aquele modelito preto da vitrine (showcase, em português).
- Qual deles, Madame?
Todos são pretos.
Ela aponta um e o viadinho
vai saltitando pegar o dito cujo.
-Queridaaa
(posso lhe chamar assim?) que bom gosto. Este parece perfeito.
A mulher vai ao provador tira seu manto
preto e veste o outro manto preto e sai. Faz como se estivesse desfilando em
frente a um espelho.
- Gostei do modelo, mas a cor não
combina muito.
- Realmente, preto carvão não lhe cai
muito bem. Vamos tentar este aqui num tom preto pneu. Parece mais com você.
No caminho de volta ao hotel vi uma coisa
curiosíssima: a nova criação dos cientistas árabes: o dromedágua
(foto).
Utilizando as mais recentes técnicas de clonagem e
manipulação de códigos genéticos, estes brilhantes homens de ciência criaram
este animal impar. Sua função é óbvia: uma vez que este povo, desde os tempos
imemoriais, se dedica a cruzar o deserto, eles resolveram o problema de
abastecimento de água com este animal híbrido. Um cruzamento de dromedário com
caixa d’água. Não me chamem de mentiroso ou inventor de moda. Vocês bem podem ver, a imagem não deixa dúvidas. A única coisa meio
desagradável é que a bica fica num lugarzinho meio inconveniente na anatomia do
animal.
Correm boatos de que a gigante
multinacional Coca-Cola já demonstrou interesse em aperfeiçoar esta criação
colocando uma fenda (ou slot, em português) para
aceitar moedas e notas de um real, e utilizar o animal para vender seus
produtos. Uma vending machine (outra expressão
brasileira) móvel. Genial! Existem idéias de se produzir uma versão tipo
exportação com capacidade para servir chopp e
cerveja. Enfim, as possibilidades são imensas.
Impressionado com tal genialidade
cheguei ao hotel, onde me dediquei a esquecer todas estas maravilhas e tirar
uma soneca... ao estilo árabe.
Dia seguinte o prosseguimento da viagem.
Uma loucura. Nenhum de nós dois jamais havia voado para Paris e não tínhamos
nenhuma idéia de como era a rota, do que esperar na chegada, onde estacionar...
Para encurtar a história e chegar logo a Paris, conseguimos realizar o vôo de
maneira muito satisfatória, embora tenha me feito xingar
esta companhia até a última geração, pelo descaso e falta de organização.
Bem, chegamos a Paris! Paris, Cidade
Luz! Paris, capital internacional da moda! Je t’aime Paris! Je t’aime Paris?!? Eu te odeio Paris!
Só tive aborrecimentos nesta droga de
cidade. Começando no aeroporto. A tripulação não desembarca pelas vias normais.
Descemos ao lado do avião, e embarcamos num ônibus que deu um milhão de voltas
pelo aeroporto até chegar num prédio onde um comissário desceu com papel
entregou para alguém e voltou para o ônibus que, finalmente, nos levou para o
hotel. Ora, droga, se era só para entregar o tal papel, porque um funcionário
da companhia não faz isto? Porque toda a tripulação tem que ficar dando
voltinhas pelo aeroporto durante a madrugada?
Cansado e doido por uma cama segui para
o hotel. Bem, o hotel fica no meio de um lugar bucólico e pastoril. Ou seja, no
meio de nada. Mesmo assim, até que a primeira impressão foi boa. Deram-me o
quarto 506. Segui para os elevadores e descobri que o hotel tinha somente
quatro andares. Intrigado, voltei à recepção e fiz a pergunta óbvia: Onde fica
o elevador para o quinto andar? Ah, Messieur, não
existe quinto andar, os quartos da série 500 são no térreo!
Quando entrei no quarto... Cama de
solteiro, colchão velho e encalombado, e móveis
gastos. Mas estava tão cansado que nem tive saco de reclamar. Caí na cama e
dormi. Mais tarde, neste dia, fui com o primeiro oficial até o aeroporto para
comer alguma coisa.
Voltando ao hotel resolvi reclamar do
quarto. Doce ilusão. É claro que eles não tinham quarto disponível para mim. O
incrível é que o preço de um quarto destes chega a quase 200 dólares! Meio
chateado, fui tomar um chopp no bar. O bar se chama
Le Cockpit e tem um ambiente agradável. Existem pelas
paredes várias fotos de pioneiros da aviação (inclusive uma de Santos Dumont) e de aviões antigos. E assim foi meu primeiro
dia na Cidade Luz.
No dia seguinte, conforme havia
combinado com Sham, tomamos a direção da cidade.
Primeiro, fomos até o aeroporto de onde pegamos um ônibus que vai para Paris
sem paradas. Como estávamos com sorte, assim que compramos os bilhetes, começou
a chover e não parou mais. Depois de uma hora em engarrafamentos chegamos à
Ópera de Paris.
Munidos de um mapa, começamos a andar
em direção ao Sena. Primeira coisa curiosa: nos Cafés o povo se senta voltado
para a calçada: todos eles! Parece que estão numa sessão de cinema (este hábito
foi adotado em Saigon. Antes eu ficava a imaginar porque eles faziam deste modo
lá. Agora sei.) só que o filme são os pedestres. Bem,
descendo pela avenida da Ópera chegamos ao Louvre. Se
eu soubesse o que ia acontecer ao longo do dia tinha entrado no Museu e não
saía mais de lá, principalmente quando soube, bem mais tarde, que naquele dia a
entrada ao museu era grátis (nas quartas-feiras). Como não tenho bola de
cristal, decidi, junto com Sham, continuar a
caminhada até a torre Eiffel, mesmo debaixo de chuva. Chegamos às margens do
Sena. Realmente uma vista muito bonita, mesmo debaixo de chuva. Todos aqueles
barcos. Os imensos Bateaux Mouche.
Sem contar os barcos que servem de residência. Muito charmoso.
Continuamos nossa caminhada e
finalmente chegamos à torre. Resolvemos não subir, pois o tempo estava ruim e a
visibilidade no topo da torre não parecia muito convidativa. Comemos um lanche
e iniciamos o retorno. Resolvi me afastar do itinerário da vinda e fomos à
procura de outras vistas. De repente, do outro lado da rua pela qual
caminhávamos, avistei um pequeno monumento cercado de gente. Cutuquei o Sham e fomos lá ver do que se tratava. Era um monumento
reproduzindo a chama da tocha da Estátua da Liberdade e blá,
blá. O interessante é que haviam
vários buquês de flores e cartazes pregados ao redor.
Usando meus parcos conhecimentos da língua
gaulesa descobri que o túnel que passava embaixo daquele local fora onde
acontecera o acidente que vitimou a Princesa Diana, a princesa dos pobres.
Pobre Diana. Lendo mais atentamente os cartazes, consegui traduzir algumas
coisas. Fatos até então desconhecidos do público e escondidos pela imprensa e
órgãos de comunicação. Por exemplo: vocês sabiam que todo aquele acidente fora
planejado por fabricantes inescrupulosos de armas, que viam em Diana uma
inimiga implacável, já que a mesma, um belo dia, se manifestou contra o uso de
minas terrestres, ameaçando assim os seus negócios. Outro cartaz propõe Diana
para o prêmio Nobel da Paz. Outro mencionava o envolvimento de serviços
secretos no “assassinato” de Diana. E vocês acham que EU escrevo abobrinhas!
Assim estava eu, que nem um Champollion
brasileiro a tentar decifrar os tais cartazes, quando senti uma mão no meu
ombro e um puxão que me fez girar e ver uma cara de bruxa horrorosa. Uma mulher
nem tão velha, mas desdentada e com o resto dos dentes escuros, sorrindo para
mim e me chamando de “bello”. Tentei me desvencilhar,
mas ela estava segurando firme no meu ombro. Começou a perguntar se eu era “Americaine”. Eu dizendo que não e querendo me livrar, e ela
continuando, dizendo-se italiana (para mim pareceu mais tipo cigana) e mais um
punhado de bobagens. Dizendo que eu ia ter uma grande “fortuna” e blá, blá. Finalmente num safanão
consegui com que ela me soltasse, e saí meio que apressado do local. Umas poucas quadras além descobri a “fortuna”: a desgraçada havia
batido minha carteira! Nem tinha tanto dinheiro, mas cartões de crédito e
documentos. Os documentos nem me fazem tanta falta, uma vez que tenho o
passaporte e minhas licenças de vôo da Seychelles na minha pasta. Mas estou
apavorado com os cartões de crédito. Ainda voltei ao maldito local, olhei pelas
latas de lixo, para ver se a bruxa havia jogado fora a carteira, mas nada.
Com o espírito em baixíssimo astral
retomamos a caminhada para o ponto do ônibus. Chegamos finalmente no tal ponto
e começamos a esperar a chegada do ônibus. E tome de esperar. Finalmente o
ônibus chegou, mas nada de sair. O motorista se trancara com uns caras e
conversa daqui, conversa dali. E nós na chuva e no frio, pois já caíra a noite. Finalmente, o motorista saiu e nos informou que não
haveria mais ônibus aquele dia, pois eles estavam em greve. Que delícia! Sham propôs que pegássemos um táxi para o aeroporto, mas
fui contra, pois examinando o mapa vi que havia uma estação de trem próxima e
que podíamos chegar lá sem grande dificuldade. Passamos a nos orientar e depois
de alguma dificuldade achamos a rua que ia dar na tal estação (Gare du Nord).
Chegamos na estação, mas cadê o local de venda de
bilhetes para o trem do aeroporto? Tinha trem para todos os lugares do planeta,
menos para o aeroporto. Procuramos o balcão de informações e, é lógico, estava
fechado. Ficamos que nem barata tonta no local, mas eventualmente conseguimos
descobrir o local de vendas do bilhete e a plataforma de partida.
Finalmente chegamos no
aeroporto. Interessante é que o acesso da plataforma do trem para o terminal é
feito por uma escada, tudo bem, mas francês me coloca uma escada normal para
subir e uma escada rolante para descer. A esta altura do jogo já estava
concluindo que devemos trocar as piadas de português pelas piadas de francês.
Quando chegamos no andar superior descobri, para meu
desanimo, que havia uma roleta de saída e que você precisava do bilhete
magnético (igual do metrô no Brasil) para sair! Nunca vi disto! O lógico é usar
o bilhete para entrar e não para sair. É claro, que eu não tinha mais o
bilhete. Assim olhei para um lado e para o outro, não vi ninguém e pulei a
roleta.
Depois de esperar bem uns quarenta
minutos, o ônibus do hotel apareceu e fomos para a última etapa de um dia em
que nada deu certo. Uma última surpresa me aguardava alguns minutos depois,
quando um casal subiu a bordo e imediatamente percebi que eram brasileiros (o
que não chega a ser incomum aqui em Paris). O incomum é que eles estão fora do
Brasil há quatro anos e vivem em Denver. Após a
chegada ao hotel, sentamos no tal bar e conversamos por umas duas horas. Eles
também tiveram seus problemas com uma motorista de táxi parisiense que fez de
tudo para extorquir dinheiro deles. Este bate papo foi a
única coisa boa que aconteceu neste dia.
Bem, hoje fui até o aeroporto para
registrar a perda dos documentos e etc. Adivinhem? Não consegui achar a estação
de polícia do aeroporto! Isto mesmo! Fui no balcão de
informações e pedi que me orientassem. O camarada me disse para subir para o
embarque. Cheguei no rapaz que controla a área de
embarque. Aquela onde está escrito que daquele ponto em diante só passageiros e
etc... Falei com ele que precisava ir à delegacia e
ele nem perguntou porque e nos deixou passar (Sham estava comigo).
Procura daqui, procura dali nada. Vi um
guarda e perguntei onde ficava a maldita delegacia e ele me disse que ficava
num andar mais acima. Lá fomos nós. No andar acima havia o pessoal da receita
francesa (bens a declarar, nada a declarar e coisas do tipo). Perguntei ao
funcionário onde ficava a delegacia e ele me respondeu que ficava um andar
abaixo. Nesta altura do jogo eu estava quase matando um.
Respirei fundo, saí da área de embarque
e desembarque e voltei para falar com o rapaz que controlava a entrada dos
passageiros para a área de embarque.Falei que não
havia achado a polícia e ele me orientou para o setor 16. Quando achei o setor
16 o que havia lá? Uma delegacia da receita! Desisti... Falei com Sham que no dia seguinte, quando fossemos embarcar para ir
embora deste lugar desgraçado, iria pedir a um funcionário da empresa que me
levasse pela mão até a estação da polícia.
Para finalizar a história de hoje.
Neste zanzar pelo aeroporto, teve uma hora que a vontade de ir ao banheiro
começou a apertar. Vi um banheiro corri e me tranquei na cabinezinha. Estou me
aliviando numa boa quando olho de lado e vejo um depósito para absorventes
femininos. Na pressa entrei no banheiro das mulheres! Daí começou: entra uma
saí outra. Bate papo daqui e dali.
E eu lá dentro esperando e esperando
que o banheiro ficasse vazio para poder me mandar. E nada. Parece que todas as
mulheres do aeroporto resolveram mijar ao mesmo tempo
e naquele banheiro. Batem na minha porta. O que falar? Só fiz hmmmm. Como se estivesse me esforçando para... Bem, vocês sabem, né? Finalmente consegui uma
brecha e saí correndo dali. Talvez devesse ter me exposto. Garanto que num
instante ia descobrir onde ficava a delegacia de polícia fantasma.
Bem gente isto foi o que aconteceu...
Por enquanto. Amanhã sigo para Dubai. Quem sabe o que
pode acontecer até lá.
“MEU
APARTAMENTO UM PEDAÇO DE SAIGON”... LITERALMENTE. (I)
Aqui estou, finalmente, na cidade de Ho Chi Minh,
a pérola do Vietnã, Cheguei aqui no sábado passado. Depois das formalidades de
praxe segui direto para o hotel. Até que enfim pude esvaziar meus baús e me
organizar razoavelmente. O hotel é bem razoável e fica em frente de uma rua
muito movimentada. Não me perguntem o nome da rua, POR FAVOR. Com tudo montado
dei uma saidinha (a primeira em Saigon) com o australiano que fez as provas e o
simulador comigo e mais um outro Aussie.
Fomos até um pub em um hotel: o Omni Saigon. Muito
lindo o lugar. Neste pub é que os pilotos expatriados costumam se encontrar no
fim da tarde para uma cervejinha e trocar umas fofocas.
No dia seguinte tive que fazer uma nova
prova (que saco, não?). Desta vez sobre equipamento de emergência e evacuação.
A esta altura do jogo minha paciência já estava no fim! Terminada a tal prova
voltei ao hotel e o Chris havia chegado de vôo e então pude conhecer um
pouquinho mais da cidade. Jantamos num restaurante italiano (tem sim!).
Bastante modesto, o lugar e comida não
é lá estas coisas, mas muito melhor do que eu poderia esperar. Dali demos uma circulada em vários bares locais, mas sem
ficar muito tempo em nenhum... Apenas para reconhecer o lugar. No dia seguinte
de manhã saí para o meu primeiro vôo: Ho Chi Minh – Hanoi.
Este vôo eu fiz com o chefe do A-310, Pierre.
Sem grandes novidades. A rotina de
sempre, ressalva para o inglês terrível dos vietnamitas.
Na realidade alguns são tranqüilos. O
vôo é curtinho e é bate e volta, sendo assim, lá pelas 5 da tarde estava de
volta ao hotel, aonde já me aguardava um recado do Chris. Ele havia passado na
2ª chamada da prova de Air Law e estava lá no Omni. Fui para lá me encontrar com ele e fiquei conhecendo
mais alguns pilotos. Tinha um que faz modelos de aviões em escala usando mogno.
Vi umas fotos. O cara é um artista!
Ontem fiz o segundo vôo, desta vez para
Kaohgiung em Taipei. Como choveu aqui! O dia todo uma chuva sem parar! Por causa disto o vôo atrasou e
cheguei um tanto tarde. Mas a cidade parece bem melhor. O hotel em que fiquei é
muito lindo. Mas, eu ri muito neste hotel quando vi a privada!
Deus do céu, a privada parecia uma nave espacial. Trocentos controles... Controle de temperatura da tampa
(assim você não congela a bunda, quando senta), controle de bidê (você aperta
um botãozinho e sai caninho de dentro do vaso e começa a esguichar... vocês
sabem aonde. Controle da força da água, controle do curso do caninho (pode ser
mais comprido ou mais curto, para se adaptar à anatomia da bunda do freguês),
controle de temperatura da água, controle do esguicho e sei lá mais o que. Eu
sei que eu ri muito com esta “novidade”. Bem, esquecendo a privada
estereofônica, de manhã cedinho já estávamos voando de volta e agora estou aqui
escrevendo estas bobeiras.
Curiosidades: O transito aqui é uma
loucura! Esqueçam qualquer coisa que já tenham visto antes. 90% dos veículos são em duas rodas: bicicletas, motos de baixa cilindrada, scooters etc... (ah e os famosos pedicabs também). Uma zona! Ninguém respeita nada, os
carros entram na frente de quem vem no sentido
contrário, os caras das motos se jogam um em cima dos outros. Capacetes não
existem. Espelhos retrovisores? Para quê? Faixa de idade e sexo: todos.
Velhinhos, garotas, meia idade etc... Todo mundo trepado na sua motoquinha ou
bicicleta tocando o zaralho como se não houvesse
ninguém em volta. Curiosas são as mulheres: uma grande parte delas está sempre
usando chapéu (inclusive o tradicional cônico), blusas de mangas compridas (ou
luvas cobrindo todo o braço) com a gola fechada, calças compridas e lenço no
rosto (tipo filmes antigos de faroeste). Motivo? Simples: aqui nesta terra,
entre as mulheres, é considerado falta de status ter a
pele bronzeada, pois significa que ela é trabalhadora braçal. Ou seja, piscina
e praia nem pensar.
Outra coisa: é considerado ofensivo
oferecer ou dar gorjeta por aqui. Ótimo para os mãos
fechadas.
Para um país comunista roxo, o que não
falta são pequenas lojas e empresas, sem falar das tradicionais invasões dos
porcos capitalistas: Pepsi, Coca-cola, Honda, Sony e por aí vai. E eles adoram dim-dim. Tanto quanto qualquer imperialista decadente. De maneira
geral os serviços são bem baratos. No hotel, como em todo hotel que se preze, tudo custa no mínimo o dobro.
TV: Ridículo! Eles não dublam os
filmes: as vozes originais ficam em segundo plano, enquanto um carinha fica
traduzindo todas as vozes no idioma deles. Sem contar os progamitchos.
Aqui no hotel tem dois canais de vídeo com filmes capitalistas e alguns canais
estrangeiros, mas de maneira geral é bem pobrezinho. Rádio, sem comentários.
Quando não é o povo miando só tem música instrumental, para não contaminar o
povo com idéias decadentes das músicas ocidentais. Por falar nisto. Chegando
aqui você é obrigado a declarar qualquer material pré-gravado que você venha
trazendo (vídeo, cd etc), livros, revistas etc... Nada de contaminar as mentes purificadas do povo! Em
contra partida, volta e meia você vê dois heróis do povo de mãozinhas dadas
andando pela rua... Normal.
“MEU
APARTAMENTO UM PEDAÇO DE SAIGON”... LITERALMENTE. (II)
Estive em Taipei, capital de Taiwan.
Cheguei lá no sábado à noite e fomos diretos para o hotel.
Ficamos num hotel de aeroporto que fica
localizado entre as pistas. Uma vista ótima e inspiradora como podem bem
imaginar. Neste hotel não tem privada estereofônica. Tudo é feito do jeito
tradicional. Aliás, o hotel é bem caidinho e não oferece quase nada. Estava com
o número do telefone do China Mike, um dos instrutores da época da Passaredo, que está voando China Airlines
e está baseado em Taipei. Foi uma graça, porque eu com certeza estava fazendo algo errado, e daí vinha a mensagem
pré-gravada da telefônica... Em chinês. Ou seja, não adiantava meleca nenhuma.
Liguei para a telefonista e depois de algum tempo consegui entender, ou pensei
que tinha entendido o procedimento correto. Bem pelo menos consegui que a
mensagem em chinês mudasse. Depois vim a descobrir que estava com o número
errado do tal cara.
No dia seguinte de manhã, ou melhor, na
hora do almoço resolvi sair com o co-piloto, que é um
muçulmano das ilhas Maldivas. Pegamos um ônibus do hotel para o terminal.
Saquei algum dinheiro local. Com uma sede desgraçada, resolvi comprar uma Coca
na maquininha do aeroporto. Fiquei com cara de idiota, porque a maquininha não
queria me vender a Coca nem pelo c... Tentei de todos os jeitos, apertei todos
os botões, mas nada: colocava a moedinha em cima e ela caía embaixo. Pelo menos
não engoliu meu dinheiro. Senti-me como se estivesse naqueles programas de
“pegadinha”. Vai ver que estava e não sabia: qualquer dia desse eu vou aparecer
na TV chinesa como o gringo idiota tentando comprar Coca-Cola.
Bem, depois de um trabalho desgraçado
tentando traduzir as placas dos ônibus, Achamos o que nos levaria ao Tai Mall, shopping center
recomendado pelo pessoal daqui. Como vocês podem imaginar, um shopping center é um shopping center. Poucas variações, exceção à língua. Quase ninguém
fala inglês e todos os letreiros são em alfabeto chinês. Outra coisa: eles
encheram o shopping com tanto quiosques que a coisa mais parece uma feira do
que um shopping.
Morrendo de fome, fomos atrás de algo
para comer. Problema: eles não têm praça de alimentação, como nos shoppings
ocidentais: é tudo espalhado... Num shopping enorme de sete andares! Problema
dois: Em quase todos os lugares o cardápio é em chinês... Sem uma tradução em
nada parecido com língua de gente. Nem figurinha eles põe. Mesmo que ponham não
adianta muito, porque a misturada que eles fazem ninguém entende mesmo (tipo
filé com recheio de maçã). Talvez vocês não saibam, mas por lá, se você não
tomar cuidado, acaba comendo um cachorro quente... Literalmente. A moçada de
olho puxado é chegado a um cachorrinho, e você não vê
nenhum na rua. Todos com medo de virar churrasco. O Chris estava visitando o
apartamento do Mike, quando ouviu os ganidos e latidos de um cachorro. Olhou
pela janela e lá estava uma dona descendo a borduna
no canino. Com certeza para amaciar a carne. Eventualmente ela matou o
bichinho.
Finalmente achamos um que tinha uma
lasanha. Foi aí mesmo. Pedimos a tal lasanha para o garçom que começou daí e
perguntar o que vai beber e etc... E ninguém se
entendia mais. No final, veio tudo ao contrário: pedi uma cerveja importada,
veio uma local (que, bem como o Chris me avisara, parecia um mijo
de gato), não queria sobremesa, veio uma torta de chocolate (aonde ele entendeu
isto eu não sei). Por aí vai...
Com a barriga cheia decidimos assistir
um filme. O lugar tem 14 cinemas. Comprei os ingressos e fomos dar uma volta
para esperar a hora. Uns 10 minutos antes chegamos na
mocinha da porta do cinema, com os ingressos. Neh, neh, neh! Não pode! Não pode! Só
pode entrar cinco minutos antes, neh... Tudo bem,
faltando 5 minutos voltamos. Neh,
neh, neh… Mostrando o
relógio de pulso... Faltavam seis minutos! Depois do filme (Missão Impossível 2. Realmente... Impossível de assistir!), resolvemos voltar.
Daí fomos atrás do ponto de ônibus. Legal. Cadê? Quem sabe? Todas as placas em
chinês. Até que eu vi uma mulher parada embaixo de uma placa. Foi aí mesmo.
Mesmo assim ficamos os dois idiotas, andando em volta, desconfiados, e se a
mulher está esperando outra coisa?... Uma carona, por exemplo. Sorte nossa, era
ônibus mesmo. Daí em diante sem problemas. Chegamos ao hotel e cada um foi para
seu lado. No domingo de manhã... Saigon.
De volta ao hotel fiz contato com o
Chris e resolvemos sair para almoçar. Depois do almoço demos uma volta pela
cidade e eu tirei algumas fotos. De interessante vi pouca coisa. Visitei o
museu do Ho Chi Minh, onde eles fazem o culto à personalidade do herói
nacional. Pouca coisa que não soubesse. Interessantes são as fotos da época da
colonização francesa. Eles, como todos os colonialistas europeus da época, eram
extremamente arrogantes e tratavam o povo vietnamita como semi-humanos. Bem
feito a pisa que eles levaram.
Algumas fotos:
Teatro: teatro (risos) |
Avenida: Brincadeira...
Esta é uma das principais avenidas. Ao lado direito, um hotel da época dos
franceses. |
Hotel Continental: Muito bonito
e charmoso. Aliás, os hotéis por aqui são muito lindos (e muito baratos), de
maneira geral. |
CIA (REX HOTEL): Consta que,
durante a guerra, o andar superior era um QG da CIA. Depois do almoço
fui, discretamente, no banheiro deste hotel. Saí de lá correndo depois da
“obra”, com medo deles pensarem que eu fosse um terrorista imperialista que
tivesse explodido uma bomba de gases mortais. |
Governo: Ao fundo o
Comitê do Povo. Acho que era o antigo Parlamento. A capital continua Hâ Noí (é assim que se
escreve). |
Peixes: Estes
tanques são de um restaurante que parei para tomar uma cerveja. O tanque à
direita tem uma enguia enorme. Tudo para o deleite dos mais finos paladares. |
Saigon River: Uma vista do rio. |
Museu: O museu do Ho Chi Minh. |
Bem fico por aqui.
“MEU
APARTAMENTO UM PEDAÇO DE SAIGON” (LITERALMENTE). (III)
Bem, outro dia alguns dos pilotos me
convidaram para sair. Lá fui eu pela mão dos caras. Bill, um co-piloto, muito
gente fina e Bob Binnings, um coroa pra lá de
arrumado. Eu sou soube que o cara é podre de rico (ganhou muito dinheiro com
especulação imobiliária em Singapura) e voa por esporte. Dizem que ele circula
em Sidney dirigindo um Rolls-Royce (como dono e não
motorista). Não sei se é verdade, mas que ele só anda becado,
lá isto é. Bill, de bermudas e sandálias, olhou para ele e disse “Cara (Mate),
eu te chamei para ir a back pack alley e você me
aparece assim...”. Ele fingiu que não ouviu e lá fomos nós para a tão afamada back pack
alley.
O que é back pack alley?
Morde? Qual a cor? É salgado ou doce? Nada disto, Back
Pack Alley é uma rua ou área lotada de hotéis
baratos, bares baratos, lojas baratas e turistas duros, tipo hippies,
mochileiros. É entupido de gente. Chegando lá escolhemos um barzinho, um tal Kim Café, e sentamos numa mesa na calçada para
apreciar as cores locais e beber uma boa cerveja. Bill começou a contar das
vantagens da BP Alley. Que tudo era barato e etc. Ele
contou que um dia foi numa agência de turismo dali e fez um passeio, saindo de
lá às 8 da manhã num ônibus, depois num barco descendo o delta do Mekong,
passeio na floresta com direito a almoço, retornando à tardinha. Tudo por cinco
dólares. Eu olhei para ele e disse “Você só esqueceu de
dizer que você precisou remar o barco na ida e na volta”. Nem no Vietnã você
faz um passeio destes por cinco dólares.
Daqui a pouco maior agito, um
corre-corre danado. Todos se levantam. A polícia! A polícia! Será uma batida?
Será que eles prendem os estrangeiros? Os garçons do bar correm para fora e
pegam todas as mesinhas e cadeiras. É proibido ter cadeiras e mesas na calçada.
O engraçado e que estacionar as motos na calçada não causa o menor problema com
os meganhas. Passada a polícia voltamos aos nossos lugares. Bill contou que no
botequim da esquina, um tal Allez
Boo, a moçada consegue comprar uma dose de heroína
por três dólares, e que se você for lá tarde da noite só encontra doidão (e
doidonas).
Bem, lá estamos conversando quando
percebi um som familiar. Adivinhem? Português. Exato! Logo aqui na terra de Ho Chi Minh.
A fonte era um casal: uma negra e um branco de barbicha. Como não podia deixar
de ser me levantei e fui lá falar com eles. História deles: ela é brasileira e
ele é francês, nascido aqui. São casados, têm duas filhas e moravam em Sampa.
Por motivos que não perguntei resolveram mudar para cá. Parece que a família
dele tem negócios por aqui e tanto o pai como o avô são muito respeitados no
local. Eles foram muito simpáticos e conversamos bastante. Contaram-me algumas
coisas, por exemplo: lembram-se que eu falei que
algumas motos tinham o espelho virado para o lado interno do guidão? Não é para
proteger os espelhos, como eu pensava, e sim para que o motorista possa se
olhar o tempo todo! O francês me disse que eles são super vaidosos por aqui.
Depois comecei a observar e, realmente, os espelhos são posicionados de tal
forma que o motorista possa se ver. Outra coisa: o
lugar é simplesmente infestado de vendedores ambulantes, se você só disser
“não”, ou sacudir o dedo no sinal de “não”, não adianta nada; eles continuam ao
seu lado oferecendo os bagulhos e te enchendo o saco.
Daí eles (o casal) me ensinaram a “mágica”: para dizer não definitivamente,
você tem que sacudir a mão no sinal que, aí no Ocidente, significa “mais ou
menos”. Olha, foi como um milagre: num instante sumiram todos. Foi como
descobrir um meio instantâneo de se livrar de moscas, mosquitos e repentistas
de praias do nordeste. Neste meio tempo me levantei e fui dar uma satisfação
aos meus dois companheiros. Eles disseram que tudo bem, sem problemas, que eles
não se importavam que eu continuasse meu papo com o
casal. Eles estavam comendo uns croquetes e me ofereceram um. Eu, como sou
desconfiado até com comidas conhecidas, que dirá das diferentes, fui logo perguntando
o que era aquilo. “Pode comer, é gostoso, é feito de vegetais”. “Bem, quer
saber? Dane-se”, pensei, e comi o tal petisco. Até gostoso. Eles começaram a
rir e me disseram que era feito com carne de cachorro. Aliás, de umas partes
muito especiais de cachorro. Eu olhei para eles e disse, sem me espantar “É
mesmo? Até que é bom, não tem mais sobrando?”. Ficaram com cara de bobos, pois
com certeza estavam esperando uma reação diferente, tipo nojo ou coisa deste
calibre. No fim fiquei sem saber se era cachorro de verdade, ou se eles queriam
apenas me dar um trote. De qualquer forma se era de verdade eu até que gostei
do croquete de piru de cachorro. Vou pedir a receita
depois. Bem, esta foi minha apresentação a tal back pack alley.
Voltei lá depois, mas não gosto muito.
Muito pobre.
Uns dias atrás, quando o Chris ainda
estava por aqui, fomos até o tal shopping, onde tem o
boliche. Entramos num lugar de massagem para os pés. Isso aí, massagem para os
pés. Do In. Fomos até a recepção onde fomos atendidos pela gerente. Um
parêntese: As mulheres têm um traje muito bonito e elegante por aqui: uma
túnica comprida com dois rasgos laterais, da altura da cintura para baixo (não
sei se o termo é este), fechada no pescoço e de mangas compridas. Por baixo
usam umas calças bem largas e folgadas (chega a dar impressão de uma saia).
Normalmente, a túnica é colorida e as calças sempre brancas, o tecido parece
ser seda. Eu fiz esta observação para o Chris e ele me disse “É muito bonito,
mas ela tem um cara de que chupou um ‘limom’”.
Realmente, parece que as mulheres que tem uma posição de mando ou de controle
usam este traje e são empombadíssimas. Andam como se
tivessem com uma vassoura espetada no rabo. E tratam as subordinadas na base do
“chicote”.
Esquecendo a gerente: sentamos em
poltronas super confortáveis e lá vieram as moças. Primeiro elas mergulham seus
pés naquela maquininha de massagear os pés.
Nenhuma novidade. Apenas que usam um
líquido amarelado que não consegui identificar. O Chris disse rindo “que era
‘vinagro’ para tirar o cheiro dos pés”. Depois elas enrolam seus pés numa
toalha. Daí vem a massagista. Primeiro o pé esquerdo.
Passa um óleo e começa a tal massagem. Muito agradável e coisa e tal. Daí ela
pegou um bastãozinho e o encostou no dedo mindinho.
Olha, no início pensei que ela estivesse me dando uma injeção ou anestesia. A
sensação era esta. Mais um pouco veio uma dor que quase me fez dar um pontapé
no nariz da filha da p... Mas agüentei firme, por causa do Chris, que estava
esperando qualquer tipo de reação para me gozar. Ao lado da poltrona tinha dois
desenhos com as plantas dos pés e as áreas do corpo correspondentes. Acho que é
para saber em que área do seu corpo ela está cutucando através do seu pé.
Quando vi “órgãos genitais” me deu um calafrio: e quando ela espetasse o tal do
bastãozinho ali? Seria como se receber um chute no s... através
dos pés? Só sei que pela metade do “tratamento” já estava pensando em exigir
ser tratado de acordo com a Convenção de Genebra. Não adiantou eu dizer meu
nome, número e posto. Ela continuou com a tortura comunista. Muitas espetadas e
dor depois, quando eu já estava quase falando fino e dizendo que meu nome era
Odete, terminamos a massagem (ainda bem). Nesta altura
do campeonato o lugar estava cheio. Ali vai gente de todo tipo e idade,
inclusive crianças. Fico imaginando o pai ou a mãe sádica que leva um menino ou
menina neste lugar “Olha, Kuâng Nhá Trang é a última vez que eu falo. Se não comer tudo, levo-o
para fazer massagem nos pés”.
A nossa polícia que tem tanto respeito
pelos direitos humanos podia importar a técnica:
- Aí, dotô, o
meliante num tá a fim de cooperar.
- Aí, malandro, tu confessa ou então
vai cantar pro bastãozinho.
- Não dotô,
bastãozinho, não. Me põe no pau-de-arara dotô, mas bastãozinho não.
- É bastãozinho sim. Phuong Nâm Phân
pode começar.
- Ye, ye, ye!
Pagamos 150000,00 dông.
Dông é a moeda local. As notas são de 100, 200, 500,
1000, 2000, 5000, 10000, 20000 e 50000 dông. Um dólar
compra cerca de 15000 dông. Não existe câmbio negro e
você pode trocar dinheiro em qualquer lugar. A taxa é a mesma.
Interessante notar que em todas as
notas, sem exceção, aparece a figura do Ho Chi Minh. De lado, de frente,
meio que de cima, meio que de baixo, não interessa, em todas lá está ele. Sendo
assim, tem que se tomar muito cuidado ao pagar as coisas, pois fica fácil
confundir 1000 com 10000, 2000 com 20000, por exemplo. Imagina se fazem isto aí
no Brasil! Podiam colocar uma figura do palhaço Carequinha ou Arrelias. Ia ser
bem de acordo com o espírito nacional.
Anteontem estive em Kaohsiung
de novo. E de novo, lá estava a tal privada. Descobri mais um segredo! Depois
da lavagem tem um botão que você aciona um jato de ar aquecido para secar as
partes. Incrível, não é mesmo? Olha, estou com umas idéias. Quem sabe se eu
comprar uma dúzia destas privadas e montar um lava jato? Será que dá certo?
“Bundas, Periquitas & Cia”, quem sabe? Pensei que poderia fazer como nos
postos de gasolina, só que com um restaurante que sirva comida por quilo.
Promoção do mês: “Para pratos acima de 500 gramas, uma ducha grátis”. Ou então,
quem sabe, um salão de beleza. Já pensaram?
O povo sentado ali lendo seu jornal ou
revista (poderíamos fazer propaganda de lançamento na revista Burda), enquanto aprecia lavagem, rinsagem
e secagem. “Lê Coiffeur de lá Bundé”...
Dirretô de Parris. “Madame, sinto muito, mas a senhora não marcou hora”, ou
então “O que vai hoje, freguês? Serviço completo? Logo se vê que o doutor é
pessoa que sabe das coisas” ou ainda: “Amiga! Você por aqui?” “Pois é, vim fazer
a bunda. Vou a um casamento hoje e sou madrinha”.O slogan poderia ser: “Dê à
sua bunda o tratamento que ela merece”. Acho que ia ser uma sensação. Se alguém
quiser investir na idéia, é só falar.
Bem chega de abobrinhas por ora.
“MEU
APARTAMENTO UM PEDAÇO DE SAIGON” (LITERALMENTE). (IV)
Vou contar umas poucas histórias que
ouvi de um ou de outro.
Estive voando com um canadense chamado Gaetan Le Viens. O cara é bem
legal, mas é um mão de vaca de carteirinha. Tipo fica
fazendo Miojo no apartamento para não gastar dinheiro
em restaurante. Ele também tem uma impressão horrível do Brasil. Não que o
Brasil seja um país modelo, mas também está um pouco longe (às vezes chega
perto) de ser o que a imprensa internacional pinta. Para que tenham uma idéia,
o cara leu num jornal que, durante o Carnaval do Rio, 4000 pessoas haviam sido
assassinadas. Perguntei se ele não havia confundido com o carnaval da Bósnia.
Mas estávamos voando perto da fronteira
do Camboja quando ele começou a comentar alguns fatos sobre este curioso país.
Como alguns devem saber, o Camboja foi o playground de um simpático movimento
revolucionário chamado Khmer Rouge,
ou Khmer Vermelho. O Khmer Rouge pintou e bordou por lá, tendo matado cerca de 25% da população cambojana (me ocorreu agora que talvez
o carnaval que ele tenha lido sobre tenha sido por lá), coisa de fazer qualquer
Hitler morrer de inveja. Ele contou que um tio dele patrocinou a imigração de
uma mulher cambojana, vítima de tal regime e que ela, ao chegar no Canadá, falou dos horrores patrocinados pelo tal Khmer.
Para começar eles esvaziaram todas as
cidades, pois segundo a teoria professada por eles, após a vitória da
revolução, aquele seria o ano zero. Portanto tudo tinha que começar do zero.
Sendo assim colocaram toda a população no campo (no ano zero da evolução Khmerdiana não existiam cidades, e todos aqueles prédios,
eletricidade, água e esgotos talvez fossem apenas miragens imperialistas,
embora, sem que ninguém saiba explicar como, metralhadoras, pistolas, minas
explosivas e afins já existissem). Chegando no campo
os desafortunados cidadãos que soubessem ler ou apresentassem qualquer tipo de
cultura, tais como músicos, poetas, pintores (não os de parede, estes podiam
continuar vivos) eram sumariamente eliminados (talvez para alguns que não
gostam muito de estudar este fosse o paraíso). Mais uma vez, a teoria do ano
zero: não existiria cultura ou educação no tal ano. E por aí seguem uma série
de atrocidades que vou passar por cima, já que este não é o objetivo. Mas uma
coisa me atiçou a imaginação: ela contou que quando as mulheres iam trabalhar
nos campos, as crianças, ainda muito novas para servirem de burro de carga e
escravas, eram enterradas em buracos até a altura do peito: deste modo não
precisariam ser vigiadas, pois dali não poderiam se mover para fazer aquelas
traquinagens que tanto preocupam os pais. Sendo assim, suas mães podiam
trabalhar tranqüilamente pela glória do bondoso Khmer,
já que este providenciara uma creche simples, porém eficaz.
Depois, quando cheguei no meu pedaço de Saigon (o apartamento) fiquei a imaginar
como seria se algum governante brasileiro viesse a tomar conhecimento de tal
experiência: logo estaria lançando um “programa social da maior relevância,
baseado em experiências comprovadas no exterior (como sabemos qualquer coisa
que venha do exterior encanta a nós, brasileiros)”. Seria um programa de
creches: Programa de Creches Populares (Procrep), ou
Tatuzinho Feliz (haveria um tatuzinho de fraldas como símbolo do programa).
Parece que já vejo o lançamento da primeira creche: o tal governante abrindo o
primeiro buraco com uma pá dourada e colocando lá dentro uma criança loura e de
olhos azuis (brasileiro típico), enquanto um marmanjo fantasiado de tatu
ficaria dançando abraçado com a Xuxa ao som de um pagode, acenando tchauzinhos para os futuros usuários da creche.
Naturalmente, como o brasileiro é um povo empreendedor e dinâmico, logo se
abririam creches particulares, pois as do governo são uma Khmer.
Vários nomes surgiriam: “A Minhoquinha Alegre”, “A Covinha
Encantada”, “A Pazinha Mágica”, “Raízes&Cia” ou ainda “Underground Kids” (para os mais sofisticados e emergentes).
Todos alardeariam vantagens como:
aterro com terra importada, pás de titânio reforçado, coveiros formados no
exterior e outros atrativos.
Se tudo desse certo partiriam para o
próximo passo Khmerdiano, este mais radical: eliminar
de vez a educação e a cultura em larga escala, fatores tão inconvenientes e
dispendiosos, se bem que isto já vem sendo feito com bastante sucesso por aí.
Pensando melhor, talvez a gente pudesse exportar nosso modelo para o Khmer. Khmer, não acham?
Mudando de assunto: outro dia estava
caminhando até o supermercado quando vi um camarada vendendo sapatos usados na
rua... Bem usados. Muitoooo usados. Ele estava lá,
sentado, numa cadeira de praia com um guarda-sol que já vira dias melhores. Os
sapatos, chinelos e sandálias alinhados aos pares estavam expostos sobre um
pano estendido na calçada. Parei um pouco e fiquei olhando. Senti pena e uma
dor no coração, pois os ditos cujos estavam realmente em mau estado, e fiquei
imaginando quem compraria aquilo.
Outra das maravilhas da terra do Tio Ho. Como seria feito aquele comércio? Alguém chega, para e
fica ali olhando os modelos expostos, olha a carteira: uns poucos e suados Dôngs. O vendedor se aproxima e, naquele tom malemolente e malandro, tão típico dos Vietnamitas, fala:
“O cavalheiro estaria interessado em alguma coisa? Hoje temos modelos a preço
de banana, quero dizer casca de banana” (as bananas certamente devem ser mais
caras do que aqueles sapatos).
O pobre homem, entre indeciso e tímido,
responde “Moço queria uma sandália Havaiana modelo 86, o senhor tem alguma?”.
“Meu amigo”, retruca o vendedor, “hoje
é seu dia de sorte, tenho aqui está sandália Dupé,
89, praticamente
nova, único dono e que só a usava nos fins de semana”.
Para garantir o freguês ele se aproxima
com a sandália na mão em cobrindo um furo no calcanhar.
“Mas eu queria Havaiana, aquela que não
tem cheiro...”. “O senhor não precisa se preocupar”, diz o vendedor inalando o
calçado inebriado, como se estivesse cheirando um frasco de Chanel Nº 5, e daí
estendendo para o freguês, porém tomando o cuidado de manter certa distância,
pois o chulé é capaz de fazer um morto sair correndo, “o dono desta jóia usava
talco Granado”.
“Mas não tem Havaiana? Não? Bem, neste
caso acho que vou fazer um test-drive, se tudo
estiver em ordem eu vou ficar, porém antes de comprar quero que meu sapateiro
dê uma olhada”.
E por aí vai...
Classificados de Homingo
(Não existem domingos aqui, pois domingo é um dia consagrado ao Senhor e
religião é coisa de capitalista): “Vendo tênis praticamente novo, aceito
chinelo como base de troca”.
Certamente deve existir uma revista
especializada: Duas Solas. Ali se pode tabelas de mercado: novos, seminovos e usados, testes comparativos e lançamentos.
Algumas manchetes: “Segredo de fábrica: Descobrimos o novo modelo do Conga (acompanha uma foto meio embaçada do pisante)”. “Peruas: Amigaaaa, meu
salto quebrou! O que fazer?”, “Teste comparativo: Rider
e Sumô”, “Dicas para valorizar o seu usado antes da
troca”, “Correio técnico: graxa ou cuspe?”.
Talvez nas ruas de Saigon existam
perigosas gangues especializadas em roubo de sapatos e, nos subúrbios,
sapatarias ilegais, especializadas em desmanche. Ou ainda, sabe Deus, garotos
distribuindo panfletos: “Compro seu sapato usado, mesmo batido, furado ou com a
documentação atrasada. Vou ao local”, ou que percorram as ruas e, encontrando
alguém que tenha tirado o sapato para coçar uma frieira ou molhar o pé num
chafariz, prendam o tal panfleto no limpador de pára-brisas... (Epa! Já estou divagando demais a respeito do tópico). Deixa
pra lá...
“MEU
APARTAMENTO UM PEDAÇO DE SAIGON” (LITERALMENTE). (V)
Antes de começar o novo capítulo desta
saga, gostaria de pedir que as crianças e as pessoas de coração fraco fossem
retiradas da sala, pois esta história contém elementos muito fortes de paixão e
desejo. Pronto? Todos os inocentes saíram?
Bem, estava eu retornando de uma visita
ao supermercado, onde havia comprado uma iguaria muito rara por aqui: queijo.
Acho que aqui seria o paraíso para a única pessoa do mundo que eu conheço que
não gosta de queijo: minha filha. Não existe sequer cheeseburguer
ou misto quente nesta terra abençoada pelo tio Ho.
Queijo deve ter alguma misteriosa conotação capitalista, de modo que ele foi
praticamente banido da vida vietnamita. Provavelmente existam queijos em campos
de reeducação, de modo que possam ser reintegrados à sociedade num futuro
próximo.
Continuando: estava entrando no hotel
com meu queijo importado e um pacote de cream crackers de origem desconhecida, mas causadores garantidos
de azias homéricas, quando um sexto sentido me alertou. Algo ou alguém estava
olhando para mim. Me virei e a vi: ela estava lá: novinha,
fresquinha, linda... Olhando ansiosa e piscando um olho. Foi amor à primeira
vista. No balcão da padaria do hotel: uma bisnaga de pão francês. Fiquei
babando de desejo e vontade: semanas sem ver uma. Imediatamente estabeleci
contato com a dita cuja e perguntei, meio que
disfarçando, quanto ela queria para subir ao meu quarto. Ela não respondeu, mas
vi o preço numa etiqueta: 60 centavos (americanos... Não existem centavos em Dông, moeda forte e estável).
Louco de paixão,
paguei o preço e a convidei para subir ao meu quarto. Ela veio de boa
vontade e, ao chegar ao quarto, mostrei-lhe, sorrindo malicioso, o queijo que
havia trazido. Coloquei-a sobre a poltrona e o queijo sobre a mesa e os deixei
por alguns minutos para que se conhecessem melhor, enquanto eu vestia algo mais
confortável. De volta, tirei a roupa da bisnaga, quero dizer, desenrolei o
papel que a envolvia e me dediquei a cheirá-la e beijá-la, enquanto o estômago
roncava em protesto. O queijo estava meio desconfiado e tímido. Não agüentando mais
de fome peguei a bisnaga e a rasguei usando as próprias mãos, abrindo-a num
acesso incontrolável de violência e fome. Ela bem que protestou dizendo que era
uma bisnaga de família e que não podia aceitar aquilo. Não adiantou: num
frenesi de fome e loucura peguei o queijo, fatiei e coloquei-o no meio da
bisnaga e, então, comi! Comi feito um louco desvairado, sem medir
conseqüências! Gentem... Vocês não podem imaginar o
que foi comer este sanduíche de pão francês com queijo. Tão simples e ao mesmo
tempo tão complexo. Assim, sabe? Ao nível de, enquanto seres gulosos, enfim...
Que saudade de sentir tal sabor. Ao
final do festim, derrubei uma lata de Coca, que estava geladíssima e full gás. O resultado de tal orgia gastronômica, vocês
podem imaginar, foi um arroto arrasa quarteirão. O chinês hospedado ao lado
bateu na parede reclamando que já passavam das dez e ele precisava dormir.
Ignorei-o, pois aqui não existe 911 e adormeci
sonhando com um prato de feijão...
Vocês talvez me chamem de repetitivo e
sem assunto (o que não deixa de ser verdade), mas nestes dias continuei
pensando e elucubrando sobre aquele lance das crianças enterradas até o peito,
lá no Camboja. A tal creche Khmerdiana. Não pude
evitar em dar asas à imaginação, nos meus desvarios de quem não tem nada melhor
para fazer da vida.
Imaginei extraterrestres visitando
nosso planeta, errando o caminho (sim, pois não basta chegar na
Terra... Todos os ET’s têm destino certo: os Estados
Unidos, e se o alienígena for realmente bom, Washington D.C.) e acabando por
sobrevoar o Camboja (ET’s REALMENTE incompetentes).
Ao sobrevoar um deles olha pela janela
e diz:
-Ei, Zouff
olha aquilo lá, mermão! Chocante!
Zouff, que estava todo
enrolado em mapas tridimensionais tentando achar o caminho, não dá muita
atenção, pois já estava irritado com seu companheiro Snaaurf,
que havia pisado no tomate e dobrado à esquerda ao invés de à direita em
Plutão: “O que foi, porra?”.
-Ali, ó! Tô
vendo um bocado de alienígenas plantando algo lá embaixo (nós somos alienígenas
para os alienígenas).
-Ok, dê uma rezinha e vamos ver do que
se trata.
Para a surpresa de ambos, eles vêm as crianças enterradas. Conclusão: os humanos estão
plantando gente! Eles se reproduzem como plantas! E logo ali já tem uma porção
pronta para ser colhida!
Abismados voltam ao seu planeta luzindo
(zunindo é para velocidade do som... Luzindo...), com a estarrecedora
descoberta. Existem seres inteligentes no universo (?) que se reproduzem em
plantações ao invés do meio mais comum e convencional conhecido na galáxia, ou
seja, o “papai e mamãe”, ou pelo único meio alternativo até então, qual seja,
peruas e galinhas gerando e criando seus filhotes em shopping centers e academias de aeróbica e musculação (fonte: Enciclopédia Galáctica Tomo XXIV).
A descoberta causa furor entre a
população. O povo começa a olhar desconfiado para as samambaias e para os
legumes. Serão espiões interplanetários? Logo oportunistas lançam livros
sensacionalistas tais como “Eram as Cenouras Astronautas?” ou “O Mistério do
Triângulo das Batatas”. A indústria cinematográfica, inconseqüente, não deixa
por menos e lança produções milionárias como “ET, o Extra Tubérculo”, ou “2001,
Uma Salada no Espaço”, aumentando consideravelmente o pânico entre a população,
que começa ir às ruas exigindo providências. Faixas tomam conta das ruas do
planeta: “Potatoes Go Home” e um novo partido radical é lançado: o PCB
(Partido Contra as Batatas), cujo símbolo é uma foice e um martelo (a foice é
para colher e descascar as batatas, o martelo é para fazer um purê esperto
depois). Cantoras gordas, de peito grande e risada escandalosa cantam
histericamente o hino oficial do planeta em apoio ao movimento popular.
Mas nem tudo está perdido: neste
planeta também havia homens públicos de reputação ilibada e de longa tradição
em lidar com situações inusitadas. Após muitas deliberações o conselho
planetário decide que “No interesse do povo e da nação devemos procurar um
entendimento com nossos parceiros interplanetários”, (nas palavras de um
político velho, safado e esclerosado do sul do planeta).
Após cinco anos da decisão, muitos
atrasos e “reajustes de orçamento”, a tal expedição decola
para a Terra, com o objetivo de localizar e estabelecer contato com os líderes
de tão estranha raça de homens plantas. Infelizmente, o navegador e comandante
escolhido para tal expedição foi Snaaurf, aquele que
já havia pisado no tomate na primeira vez... Uma espécie de Cabral
interplanetário.
Chegando à
Terra, entram em órbita e começam a pesquisar várias nações. Quase que pousaram
na Rússia ao verem a Praça Vermelha com aquelas torres, cujo topo parecem
bulbos, mas Snaaurf concluiu,
lusitanamente, que aquela seria a capital só dos rabanetes e das beterrabas.
Precisavam encontrar o local exato... Onde todas as raças vegetais se
encontrassem. Quando já estavam quase desistindo, sobrevoaram uma cidade onde
avistaram um prédio em cujo topo havia um grande prato de sopa com a tampa ao
lado. Só poderiam concluir que ali se reuniam todas as espécies do planeta. E
então pousaram em Brasília... Em frente ao Congresso.
Após o pouso ninguém apareceu no
início, pois era uma quinta-feira à tarde. Após algum tempo, devagarzinho, um
caboclo sem camisa e usando bermudas e com uma flanela na cintura se chegou: “E
aí, “seo” marciano, gente
boa! Posso dar uma olhadinha?”
Snaaurf altivo e arrogante
respondeu: “Leve-me ao seu líder!”
O caboclo coçou a cabeça e respondeu “Oia, “seo” Marciano, num sei
desta coisa de líder, não. Nunca ninguém ouviu falar disto por aqui. Mas acho mió o senhor me deixar olhar sua nave. Aqui num tem líder,
mas ladrão é o que num falta.”
Snaaurf o ignorou e caminhou
para o prédio... Estava para cometer o segundo grande erro de sua vida. Mas
isto já é outra história...
Sem graça? Sem imaginação? Está ficando
broxa? Tudo bem... Estou voando muito e não tenho muitas aventuras para contar,
assim fica tudo na imaginação. Mas assim que me pegar por aqui em HCM irei numa excursão para conhecer os túneis onde viviam e
lutavam os Vietcongs, na época da guerra... Com
certeza terei novas e excitantes histórias para vocês. Aguardem seu
correspondente favorito.
“MEU
APARTAMENTO UM PEDAÇO DE SAIGON” (LITERALMENTE). (VI)
Devido a insistentes pedidos dos fãs e
da mídia, vou tentar continuar com a descrição do que vem acontecendo aqui na
terra do Tio Ho. Antes devo alertá-los que meus
empregadores, percebendo que eu não estava fazendo nada além de fiscalizar a
natureza, resolveram arbitrariamente me colocar para trabalhar. Garanto a vocês
que foi uma decisão unilateral e que eu não tenho nada a ver com isto. De
qualquer forma, o que eu quero dizer é que nas últimas semanas não estive
envolvido em nenhum acontecimento digno de relato. Sendo assim, tentarei
descrever alguns não tão dignos.
A primeira coisa que quero dizer é que
estou quase pedindo demissão. Para preservar a minha sanidade mental, ou pelo
menos o que resta dela. Não sei se serei capaz de continuar trabalhando por
aqui. O problema se resume a ir e voltar ao aeroporto. Só agora que tenho voado
praticamente todo dia é que a coisa começou a me afetar.
Buzina. É isto mesmo: buzina. Imagine
que o tempo do hotel até o aeroporto não excede a 15 minutos de carro, no
entanto, neste período tão curto, os motoristas que nos levam conseguem a
proeza de tocarem a buzina por 20 minutos ou mais. Pelo menos assim é o que
parece. Eles são a prova viva dos efeitos de tempo e espaço preconizados na
teoria da relatividade. Eu juro! Não é brincadeira! Estou usando tapa ouvidos para andar de carro! Tem momentos em que dá
vontade de esganar o maldito motorista, ou então enfiar uma buzina na cabeça do
cretino e fazê-la funcionar por horas. Mas talvez não faça efeito, pois eles
certamente já nascem ouvindo buzinas.
Talvez fosse uma melhor idéia deixá-los
em um quarto onde o silêncio fosse absoluto. Acho que a sensação para eles
seria tão estranha que eles enlouqueceriam, assim como eu. Diria até que se
eles conhecessem o efeito mortal de suas buzinas eles teriam ganhado a guerra
em um tempo muito mais curto e evitando perda de vidas, embora com o prejuízo
irreparável da razão de seus inimigos. A conseqüência imediata seria a
superlotação dos hospícios ocidentais. Como seqüela de longo prazo haveria a
criação de mais uma modalidade médica: a buzinologia,
especializada em tratar de veteranos daquela guerra. Assim como um comitê em
Genebra para regularizar o uso das mesmas como arma.
Protestos na rua contra o uso inumano de tal arma. É claro que os protestantes
não poderiam lançar mão do tão conhecido recurso de protestos: o buzinaço, pois seria incoerente. Sendo assim uma nova
modalidade de demonstração seria inventada: o silentaço.
Outra coisa que me tem irritado
sobremaneira é o problema de comunicação. Claro que eu não esperava chegar aqui
e encontrar todo mundo falando inglês, mas pelo menos o pessoal que trabalha
diretamente conosco, sim. Tenho me preocupado, e isto é sério, com o fato de
que se um dia eu tiver uma emergência a coisa vá para
o vinagre, simplesmente pelo fato de ser mal interpretado ou não entendido pela
tripulação de comissários. Para que vocês tenham uma noção do que acontece,
aqui vão alguns exemplos: Um dia após o tufão lá em Taipei, estava falando com
um comissário, explicando o que havia acontecido. Falando de ventos uivantes, de chuvas torrenciais e coisas tão típicas de
tufões. Ele só ouvia com aquele sorriso oriental e boçal, assentando com a
cabeça. De repente ele falou “As coisas são muito “calas” neste hotel, não é
mesmo, comandante?” Para resumir: passei uma hora falando de tufões para uma
parede. O cara não havia entendido uma palavra do que eu disse.
Uma das comissárias oferecendo as
opções de suco: “olange juice,
apple juice
and piss juice (para os menos versados em inglês: piss quer dizer mijo)”. Eu quase pulei do assento: Como é
que é? Piss juice? Você tem
certeza? Yes, piss juice!
Depois de um tempinho matei a charada: ela estava oferecendo PEACH juice, ou seja, suco de pêssego.
Embora eu, particularmente, não goste
muito de pêssego, vocês hão de admitir e concordar de que é muito melhor do que
suco de mijo.
Outra: olhando para as opções de café
da manhã, pergunto o que é isto? “- Macarrão”.
Que é macarrão eu estou vendo, mas de
que tipo? O que está junto com o macarrão?
Macarrão, comandante. E isto aqui? “-
Arroz”. Sei que é arroz (em silêncio: idiota), mas com o que (anta)? “- Arroz,
comandante.” Desisti e fiquei sem comer.
E uma última. No solo em Taipei vi que
os passageiros estavam embarcando e que a porta da cabine estava aberta. Chamei
a comissária e pedi para que ela fechasse a porta: “Please,
close the door”. Acho que
poucas coisas podem ser mais simples do que isto. Concordam? Pois a jumenta de
olhos puxados voltou para trás e não fechou a porta. Daqui a pouco me entra o
despachante perguntando o que eu queria com ele. Ela de alguma forma concluiu
que eu queria falar com o cara. Outra foi para trás e começou a fechar a porta
na cara dos passageiros que entravam. Ela havia entendido que era para fechar a
porta do AVIÃO. Demais, né?
Neste espírito, um dia após ter jantado
e tomado umas cervejas e tantas lá no centro peguei um táxi. “Amara Hotel”,
falei para o motorista. Ele me olhou como se eu tivesse pedido para ele me
levar para Marte!